Na Mooca, uma casa para mais de mil
Como vivem os homens em situação de rua acolhidos pelo Arsenal da Esperança
Nas antigas instalações da Hospedaria dos Imigrantes, mais de mil homens em situação de rua vivem no Arsenal da Esperança, casa de acolhimento na zona leste de São Paulo. Além de abrigo e comida, eles recebem acesso à educação, cultura e atendimentos médico-odontológicos. Falamos com Marcela Porcelli uma das voluntárias mais antigas da casa, que descreveu um pouco do funcionamento do lugar e a vida das pessoas atendidas.
A fundação oficial foi em 1996, com um processo que começou em 1994, quando a entidade Italiana Servizio Missionario Giovani (SERMIG) chegou em São Paulo. Seu fundador, Ernesto Olivero, foi na época convidado pelo bispo Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida para fazer seu trabalho na cidade e acolher moradores de rua. A pedido, o Governo do Estado cedeu as instalações da ex- Hospedaria, que até então era usada como unidades de acolhimento para crianças, adolescentes em conflito com a lei, além de senhoras de terceira idade. Após um período de transição, espaço foi sendo reformado, adquirindo o formato que tem hoje.
Hoje o Arsenal da Esperança abriga 1.150 homens, com acesso a dormitórios, refeitório, biblioteca, lavanderia, locais de oração, salas de aula e um bazar. Entre as aulas dadas, a português para estrangeiros, devido à presença de haitianos e outras pessoas advindas de fora do país. A casa funciona com a presença de funcionários e muitos voluntários. Mas nem todos os voluntáriostrabalham lá dentro: alguns concedem horários de atendimento para que o Arsenal envie moradores. “Ele fala ‘eu te dou dois horários por mês e você manda quem precisa. Tratar o dente, ou médico, ou advogado”, descreve Marcela. Há ainda o trabalho voluntário realizado por estudantes de Universidadesatravés dos cursos como podologia, medicina e enfermagem.
Embora o trabalho tenha começado em parceria com o Estado, em 2008 a responsabilidade foi passada para a Prefeitura. Assim, um convênio com ela cobre uma parte dos gastosda casa, enquanto o restante parte de doações de pessoas físicas e, contribuição de empresas.
A maior parte da comida para as refeiçõesé feita no local. A entidade recebe também doação de alimentos de ONGs como o Banco de Alimentos, que leva alimento de lugares em que há excesso para onde houver falta. A cozinha é terceirizada. Por outro lado, há no complexo uma padaria onde os algunshóspedes trabalham, pois tem ali a oportunidade de fazer um curso de panificação com certificação. De acordo com Marcela, são feitos dois mil pães por dia. E em dois dias, uma tonelada de arroz é consumida.
Ainda segundo a voluntária, fazer a melhor comida possível é parte da intenção de fazer com que todos se sintam em casa. Além disso, cada um dorme sempre na mesma cama, e tem um armário para guardar seus pertences. Os alojamentos possuem pontos para carregamento de celulares. Para lazer, há um salão onde podem assistir TV em conjunto, em um telão, e outro maior que é usado para ocasiões como, por exemplo, assistir o jogo do Brasil e filmes. Neste, há também uma pequena capela, onde ocorrem missas aossábados, frequentadas somente por aqueles que quiserem. Muitos passam tempo lendo na biblioteca. Não só livros, jornais e revistas, como também histórias em quadrinhos, o que inclui alguns exemplares dos X-Men, mas principalmente gibis da Disney e da Turma da Mônica.
Marcela também explica um projeto de trabalho comunitário que visa suscitar o valor que cada hospede tem. “Nosso sonho é que o Arsenal não precisasse acolher ninguém, que não houvesse ninguém morando na rua. Porém, há... e então queremos que as pessoas que estão no Arsenal se sintam acolhidas, que se sintam úteis, com valor”, declara. “Uma das formas que a gente criou para que isso seja realizado é um projeto chamado Floresta que Cresce. Um grupo de hóspedes nosso vai às quartas feiras a algum lugar que precisa de ajuda. Por exemplo, tem uma creche de crianças com deficiência aqui perto. Eles vão lá, eles limpam, eles pintam, eles plantam”. Também mencionou que às vezes eles vão à parquespara varrer e recolher o lixo.
No Arsenal, há ainda um projeto de reciclagem com o qual cada hospede pode colaborar.
A casa é dinâmica, todos os dias alguns dos hospedes saem e outros chegam. Há horário para refeições, para entradas e saídas diárias, regras de convivência. Tudo isso aliado à filosofia da entidade “A bondade disarma”, fazem com que o Arsenal tenha números gigantes de hospedes e números quase inexistentes de brigas, violência ou problemas entre os hospedes.
Nem todos que saem voltam para a rua, porém. Muitos conseguem dinheiro para voltar para suas cidades natais, formam famílias, ou conseguem empregos com salário suficiente para pagarem outra moradia.
Perguntamos a respeito do Programa Trabalho Novo, criado em 2017 pelo então prefeito João Dória. Marcela explica porque a proposta não obteve o sucesso que pretendia.
“Nós tivemos o Trabalho Novo aqui também. Algumas pessoas foram trabalhar sim, mas não tinham acompanhamento. Essas pessoas (que encontram-se em um momento de fragilidade de vida) precisam ser acompanhadas por um tempo até elas se estabilizarem, e no Trabalho Novo não existiu isso. Então, hoje o programa não existe mais. Mas pôs gente para trabalhar”. Para ela, a ideia era boa. Mas devido a isso, o número de pessoas que se estabilizaram pelo programa e continuaram trabalhando foi menor do que o esperado.
O Arsenal da Esperança está localizado na rua Almeida Lima, no bairro da Mooca. Mais informações no site oficial do SERMIG.
Eduardo Ormeneze Monteiro
Henrique Dombosco Dentzien
Nenhum comentário:
Postar um comentário